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  • Cláudia Lemes

Uma conversa com o autor que deseja ser publicado

Ano passado, a Rocket abriu seu primeiro edital para publicação tradicional. O que é publicação tradicional? Quando a editora faz todo o investimento na publicação do livro, por acreditar no potencial da obra, sem exigir nenhum tipo de investimento do autor.


Nos dias atuais, é cada vez mais raro que uma editora pequena e independente consiga publicar livros impressos de forma tradicional, pois o mercado está enfrentando diversas dificuldades, como a falta de insumos, o valor altíssimo do dólar e do papel etc. No entanto, a Rocket segue firme em sua missão para publicar autores nacionais.


Para isso, é necessário que o autor também tenha uma postura profissional. Na minha jornada como autora, eu costumava revirar os olhos quando ouvia essa frase, achando-a condescendente e infantilizante. Meus amigos editores e publishers me diziam que eu me surpreenderia se conhecesse suas histórias de atitudes péssimas da parte dos autores, e eu lutava para defender a minha classe, mas é claro, paguei a língua. Depois de muito estudo, cursos e experiência como editora, decidi abrir minha própria editora para publicar livros nacionais, e infelizmente, em poucos meses, tive experiências bizarríssimas com autores que queriam ser publicados por nós.


Decidi escrever este post por um motivo simples: às vezes acabamos não percebendo onde estamos errando. E numa tentativa de alinhar meu discurso com as minhas ações, percebi que de nada adianta reclamar dos autores que não seguem as regras e o bom-senso, se eu posso alertá-los meses antes de abrir o edital. Portanto, não leve este post para seu coração – ele não é pessoal. Leia com atenção para evitar alguns erros e atitudes que podem estar prejudicando sua jornada de autor.


Os maiores erros cometidos no edital do ano passado:


  • Livros que superavam o limite de palavras estabelecido. O edital era claro: limite de 90 mil palavras. No book proposal, na pergunta “qual é o tamanho da obra, em quantidade de palavras?” tivemos respostas como "100 mil palavras" e até a quantidade de caracteres da obra.

  • Textos não justificados. Ler um texto de 80 mil palavras, não justificado, é uma tarefa cansativa. Por isso, no edital, pedimos para que todos os textos fossem justificados. Mesmo assim, recebemos dezenas de arquivos não justificados.

  • Textos fora de formatação. Não exigimos nenhum tipo de formatação muito específica. Só pedimos que a fonte fosse Times New Roman ou Arial, tamanho 12 ou 14, e que o espaçamento fosse simples ou de 1,5. Não fizemos especificações de margem. Mesmo com tanta flexibilidade, recebemos dezenas de arquivos totalmente fora dessas especificações. E pior: autores reclamando que a formatação era difícil demais.

  • Noções básicas de formatação. Algumas obras chegaram a nós com problemas sérios, que tornaram a leitura impossível. Alguns dos problemas mais comuns foram: páginas inteiras sem quebra de parágrafo, diálogos sem travessão e falta de recuo nos parágrafos.


Em relação à prosa, estilo e narrativa, entendemos que é algo totalmente arbitrário, afinal, cada obra tem seu objetivo. Por isso, é muito importante que o autor saiba o que está escrevendo, e para quem. É possível que você tenha uma obra de altíssima qualidade, mas que não se encaixa na nossa proposta.


Então, quais são as preferência e prioridades da Rocket, em relação aos livros que deseja publicar em 2023?

  • Criatividade;

  • Escrita competente, direta;

  • Boas histórias, boas tramas, bons personagens;

  • Estilo moderno: ritmo intenso, imersivo, ambientação e descrição sensorial, worldbuilding criativo;

  • Questões político-sociais, quando necessárias, devem ser intrínsecas à narrativa e mostradas na história, em vez de contadas (evitar textão de Facebook na voz do autor);


O que evitar na narrativa:


  • Não importa quantas vezes escutamos “não comece com meteorologia”, todo edital recebe uma alta porcentagem de obras que começam com descrições impessoais e entediantes sobre a chuva, o clima árido, a ventania... Tente começar seu livro com algo mais interessante: personagem e conflito;

  • Narrativas impessoais. Ano passado, recebemos obras cujo primeiro capítulo inteiro era voltado para a descrição de uma cidade, um planeta, um lugar. Foque em apresentar personagens, conflito e deep POV.

  • O pavão misterioso. Enquanto lê, o leitor transforma palavras em imagens. Quando você começa seu livro com um prólogo de quatro páginas com sujeito oculto, onde não sabemos quem é o personagem (ou pelo menos uma idade aproximada, um gênero...), fica impossível visualizar o que está escrito. Isso deixa o leitor frustrado e ele abandona o livro. E o editor, também.

  • Info-dumping;

  • Notas de rodapé. Estamos acostumados a ler notas de rodapé em obras traduzidas, mas não há necessidade de usá-las, na maior parte do tempo, em obras modernas de ficção no idioma original. Elas distraem o leitor, arrancando-o na narrativa, quebrando a ilusão e a imersão, e quase sempre, podem ser evitadas. Insira a informação de maneira natural durante a narrativa.


Problemas comuns no book proposal:


A Rocket deu muitas dicas, ano passado, de como escrever um resumo de livro e uma sinopse comercial. Mesmo com as dicas, recebemos alguns book proposals confusos. Alguns dos erros mais comuns foram:


  • Sinopse gigantesca;

  • Resumo do livro no lugar da sinopse comercial;

  • Uma frase vaga sobre o livro no lugar da sinopse comercial;

  • Um discurso apelativo do autor no lugar do resumo do livro (“por favor leia o meu livro, é questão de tempo até que seja um best-seller mundial”);

  • No questionário, no lugar de GÊNERO PREDOMINANTE, muitos escolheram “explicar” a mistura de gêneros da obra, em vez de apenas escolher o gênero predominante. Ex: se sua obra é uma distopia com elementos de horror e erotismo, o gênero PREDOMINANTE é a distopia. Não crie uma nova opção para escrever “distopia com horror e erotismo e pitadas de drama e comédia”. Essas informações podem ser inseridas no resumo do livro, por exemplo.

Como Justificar seu texto:

Como criar uma sinopse comercial:





Os aspectos emocionais de submeter sua obra.


É um processo exaustivo. Após meses de trabalho, revisão, reescrita e autoedição, o autor finalmente reúne coragem, passa um tempão escrevendo resumo, sinopse e formatando a obra, apenas para passar MESES ansioso, alterando entre dois mindsets: "pensamento positivo, já consegui, deu certo" e "se eu não passar, vou ficar muito mal...". Acredite, nós entendemos.


Aqui vai uma lista de coisas que você pode ter em mente para não surtar:

  • Às vezes, seu livro é ótimo, mas o do outro era melhor. E tudo bem;

  • Às vezes, seu livro é ótimo, mas não tem nada a ver com a editora;

  • Às vezes, seu livro não é tão bom assim, e tudo bem. Contrate bons profissionais para fazer leituras críticas, faça cursos, leia sua obra com objetividade;

  • São centenas de livros e a editora geralmente se apaixona por 10, 15, 20... só que, no momento, podemos publicar apenas um. Como escolhemos esse "um"? Nem sempre é o que mais gostamos. Às vezes é, sim, uma decisão comercial. E tudo bem.

  • Muitos autores bestsellers foram rejeitados centenas de vezes (J.K. Rowling e Stephen King, por exemplo). Por que você não seria?

  • Mesmo se não for escolhido, veja o lado bom: você tem um livro pronto para ser publicado. Você pode enviá-lo a outras editoras, agentes literários, concursos e até autopublicá-lo. Escrever e publicar constantemente - esse é o trabalho do autor.

  • Não leve para o lado pessoal - você, como pessoa e como autor, não foi rejeitado: aquela obra específica não se encaixou perfeitamente na única vaga da editora. E tudo bem.


Esperamos que as dicas tenham ajudado. Seguir as regras (que não são tão complexas assim), mostra ao publisher o nível de profissionalismo do autor.


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